Maratón Gran Bahía Vig-Bay: Uma experiência para recordar

Quando abracei este objetivo de fazer 40 maratonas até aos 40 anos sabia perfeitamente que a carga a que me ia submeter me ia obrigar a encarar algumas delas de forma tranquila, sem pensar em tempos, sem forçar, sem me desgastar em demasia. Sabia que tinha de o fazer eventualmente, mas não sabia bem como conseguiria encaixar isso na minha mente. É que, por mais que tenhamos o pensamento fixado em fazer algo de forma tranquila, o nosso ego e o nosso espírito competitivo estão lá para fazer a sua parte. E nem sempre essa parte é positiva…

IMG_20190406_213957-01.jpeg
O kit pré-prova

Por isso, a primeira coisa que digo sobre esta Vig-Bay é que estou muito orgulhoso de mim mesmo. Porque respeitei o que tinha planeado, porque não forcei e porque, acima de tudo, me diverti imenso enquanto corria os sempre temíveis 42.195 quilómetros. E já que falo na questão da temível distância, vou confessar-vos que isso foi algo que me passou pela mente no sábado. Não estava nervoso, mas estava receoso. Tinha medo de estar a subestimar uma distância que é sempre de respeito. Mesmo indo num registo tranquilo, 42 quilómetros e 195 metros são sempre uma distância assustadora.

Para esta prova não tive direito a qualquer tipo de plano traçado pelo meu treinador. Não era preciso. Ele sabia que eu tinha cabecinha para fazer as coisas como deveriam ser feitas. O objetivo de tempo fica para o segundo semestre, seja lá onde for a minha maratona rápida dessa altura do ano… Por isso, ao invés de ter um plano feito por ele, fiz eu mesmo um plano. Queria fazer uma prova progressiva, para acabar bem e de sorriso no rosto. Só tinha um objetivo de tempo (afinal ele existia…): não fazer pior do que a minha primeira, onde cruzei a meta já para lá das 4:04.

O plano era simples:

10k a 5’30
10k a 5’20
10k a 5’10
10k a 5’00
2k a abrir

Com este plano conseguiria amplamente um tempo melhor do que Lisboa e cravaria também um registo ligeiramente mais rápido em relação ao Porto. Daria qualquer coisa à volta das 3:40. Quase 20 minutos mais lento do que fizera um mês antes em Barcelona. Ficaria chateado com isso? Não! E não fiquei mesmo.

IMG_20190407_074327-01.jpeg
A luz do dia ainda não tinha chegado e nós já lá estávamos…

8:15 – Arranca a festa!

Éramos mais de mil corredores à partida para esta maratona. O pelotão era reduzido, o que me fazia temer viver algo similar do que tinha acontecido em Bilbau, quando tive uma penosa e solitária travessia no deserto (noturno) da capital basca. Não foi o caso. Bem longe disso! Comecei a prova na companhia de alguma malta de Viana do Castelo, que ali tinha ido simplesmente para curtir o ambiente e aproveitar para juntar uma maratona mais ao currículo. Eu tinha esse chip, mas queria rolar a ritmos um pouco mais rápidos. Tanto que ao fim de um quilómetro já me tinha ido à minha vida.

Mesmo assim, o relógio tinha de andar entre os 5’20 e 5’30 por quilómetro nesta primeira fase. Não podia passar muito disto. Tinha de me poupar. Tinha de me obrigar a poupar as pernas para o que viria, mas também pensar naquilo que fiz nestes últimos meses, com seis maratonas em pouco mais de meio ano.

Missão dada, missão cumprida. Chego aos 10 quilómetros em 55 minutos. Pelo meio, para lá de um arranque lento, ainda tirei uns 40 segundos para me encostar a uma zona para captar um plano da paisagem com a minha action cam. Deu para tudo!

56521041_1118611864978516_7117961523414171648_o.jpg
Obrigado António, por me estragares a foto…

Depois desta primeira fase, seguiam-se dez quilómetros um pouco mais exigentes a nível de ritmo (entre os 5’10 e os 5’20), que coincidiam também com uma fase de sobe e desce, na qual enfrentávamos dois retornos. O primeiro aos 13 e o segundo já em cima da meia maratona. Este será provavelmente o único ponto chato deste percurso, já que a organização optou por fazer um traçado que usa apenas aquilo que habitualmente serve a meia maratona, o que obriga a este jogo de ida e volta.

Ainda assim, nem tudo foi mau neste início de ‘pára, arranca’, já que à passagem da meia maratona, quando na nossa mente entra aquele pensamento do “ainda falta metade…”, somos brindados com um incrível banho de multidão. Já à espera da sua partida, os atletas da Meia Maratona juntam-se para dar um empurrão aos loucos que estão ainda a meio da sua aventura. Ali, naquele momento ganhámos nova vida. Mesmo indo na desportiva, sabia que precisava também deste tipo de doping. Porque 42 quilómetros são sempre 42 quilómetros!

Cheguei à meia maratona sem grandes sobressaltos. O relógio marcava 1:54:09. Ia a um ritmo médio de 5’25. Estava totalmente dentro do planeado. Estava fresco fisicamente, com as pernas a responderem de forma positiva, a respiração totalmente certa e mentalmente sentia-me forte e focado. Tinha tudo a correr de forma perfeita. Estava a sentir-me orgulhoso de mim. Estava mesmo!

56595482_2685463718155006_40890588328886272_o.jpg
De costas num dos muitos retornos. Aqui encontrei-me pela última com a malta de Viana…

Forcemos um bocadinho…

Passada a meia maratona, era hora de melhorar ligeiramente aquilo que tinha feito até ali. Aqui já tinha de meter ‘a faca nos dentes’ e deixar-me de palhaçadas. Queria aproveitar o ambiente e divertir-me (e fi-lo!), mas tinha também de fazer um treino de qualidade. Um treino progressivo. Fui passando os quilómetros e andava sempre ali entre os 5’05 e os 5’10. Por vezes era mais lento, penalizado pelas subidas, por vezes era mais rápido, empurrado pelas descidas. Estava claramente a sair-me tudo de forma perfeita.

Como perfeita foi a minha gestão de energia ao longo desta prova… No último longo, com 30 quilómetros, consegui fazer as duas horas e meia de treino sem ingerir qualquer tipo de gel ou barra durante o treino. E isto sem ter qualquer falha a nível energético. Para esta maratona decidi manter o plano e tentar repetir o que fizera aí – não ia fazer a prova toda sem comer, mas ia retardar ao máximo a ingestão (o meu truque tem sido sempre o dia anterior, onde como… e bem! – é só ver as fotos abaixo).

Levei comigo um gel e uma Salt Bar da Gold Nutrition e ainda umas gomas da Clif. Tinha a certeza que não precisaria daquilo tudo, mas antes ter a mais… do que a menos! Os quilómetros foram passando e nunca senti real necessidade de ingerir o que quer que fosse. Passei pela zona com fruta e segui em frente. Passei por uma segunda zona e fiz o mesmo. Ali pelos 29 quilómetros, mesmo não estando a sentir fome e a sentir-me com energia, achei que era hora de prevenir e comi a Salt Bar.

 

Esquece o plano…

Comecei a aproximar-me dos 30 quilómetros e ia conseguindo manter aquele ritmo que tinha apontado para esta fase. Raramente fazia parciais acima dos 5’10, mas nunca desci abaixo dos 5’06. Estava a ser o mais certinho possível (orgulho!). Alcanço a barreira dos 30 quilómetros em pouco mais de 2:40 horas e estava claramente a caminho de cumprir aquele plano que tinha traçado na véspera. Só tinha de fazer os últimos 10k a 5’00 e depois deixar as pernas voarem nos últimos dois.

Eu até queria fazê-lo, mas não o fiz. E por uma boa razão. Ali à chegada dos 30 quilómetros, vejo um senhor todo entusiasmado a gravar algo no telemóvel. Estava a celebrar a passagem daquela barreira. Aquela barreira que assusta tudo e todos. Dizia que era uma loucura, que estava a viver uma loucura. Palavra puxa palavra e percebo que ali estava um senhor que naquele dia cumpria 60 anos e que decidira que a melhor forma de o celebrar era fazer uma maratona.

56764399_1118883864951316_7789917222821953536_o.jpg
Este senhor aqui ao meu lado aos 60 anos decidiu fazer a sua estreia numa maratona…

Ali aos 30 quilómetros ia com ritmo para fazer um tempo entre as 3:45 e as 3:50. Isto na estreia. Aos 60 anos! Fiquei encantado com aquela força de vontade e disse-lhe na hora que gostava muito de chegar à idade dele com aquela genica. E disse-o de coração.

Vi que já começava a quebrar, que começava a sofrer, e aqui e ali procurei animá-lo. Tentei conversar com ele, fazê-lo esquecer as dores. Quis ajudá-lo a chegar ao final. Tanto que esqueci o meu plano inicial. Esqueci o relógio e decidi focar-me naquele companheiro que tinha ali a meu lado. Ele disse-me para ir, mas eu fui ficando. Fui olhando para trás e tentando puxar por ele naquela derradeira barreira. Chegámos aos 34 e passei-lhe o meu truque (“só faltam seis quilómetros, que os últimos dois não conta…“).

56555937_1118884384951264_3193367863146577920_o.jpg
Não estava a custar nada…

Até me senti famoso…

Aos 36 passo por um dos muitos portugueses que estava comigo a correr a maratona. Dei-lhe uma palavra de força e segundos depois percebo que ele sabia quem eu era, sabia do meu objetivo das 40 maratonas. Fiquei orgulhoso (outra vez!). Juntei-me a ele. Fomos conversando enquanto do meu lado esquerdo lá continuava o recém sexagenário, concentrado na sua corrida, a ouvir a sua música.

Aos 36k enfrentámos a última grande barreira da maratona, com uma ligeira subida e aí, enquanto procurava não quebrar e manter um ritmo constante na subida, deixei o meu companheiro espanhol ficar para trás e nunca mais o vi. Por momentos pensei que podia tentar esperar e ajudá-lo, mas tinha a sensação de que, mesmo passando por dificuldades, ele iria ter a força para chegar à meta em grande estilo. Não me enganei.

Na companhia agora apenas de um compatriota, era hora de fazer os últimos quilómetros até Baiona. Ele já conhecia o percurso e lá me disse que só tinha de fazer a baía até ao outro lado. Parecia fácil, mas ainda faltava um danoninho. Aqui, não vou mentir, apesar de estar num registo tranquilo e não ter forçado, já me estava a custar. Já me começavam a pesar os quilómetros. Tentei não mostrar isso ao meu companheiro de batalha, pois também ele já parecia estar a dar as últimas, e ainda conseguimos forçar para um final em grade estilo. Os últimos dois quilómetros a 5’00 e os derradeiros 500 metros a 4’45.

56419491_748632368871971_6385392230458195968_n
Já só faltava um bocadinho… e era a descer!

Tínhamos de acabar em sprint. Isso e com a bandeira portuguesa lá bem visível. Desta vez não quis que o protagonismo patriótico fosse só meu. Passei-lhe a bandeira e fizemos os derradeiros 200 metros a segurá-la os dois. Em sprint, de sorriso no rosto, a mostrar que é possível acabar uma maratona com ar de quem tinha acabado de sair de uma comédia. Felizes da vida, com a sensação de dever cumprido.

56644841_1119073908265645_4280919432932360192_o.jpg
Missão cumprida. Nona maratona no bolso (ou nas pernas!)

Foi a minha nona. E saí mesmo com a sensação de que fiz tudo o que estava ao meu alcance. Registei o meu sétimo tempo à maratona, mas acabei fisicamente impecável. No dia seguinte estava com as pernas como novas e hoje, terça-feira, dia em que vos escrevo este testamento, já fui correr 40 minutos, nos quais me senti totalmente recuperado.

Venha a décima!

Cumprida a nona, nem vou ter grande tempo para recuperar… Daqui a 19 dias tenho já outra maratona para correr. Será a décima. A décima em pouco mais de ano e meio. Será um momento para mais tarde recordar, um marco na minha ainda curta mas proveitosa ‘carreira’ enquanto maratonista. Afinal de contas, se há dois anos dissessem que teria dez maratonas nas pernas certamente não acreditaria

E sabem o melhor? Vou ter novamente a oportunidade de ajudar alguns estreantes. E isso, acreditem, não tem preço. Venha a Maratona da Europa!

One thought on “Maratón Gran Bahía Vig-Bay: Uma experiência para recordar

  1. Os meus parabéns pela prova e pelo seu desafio.
    Que loucura boa.
    E como me revejo nisso.
    Corro apenas há dois anos e meio, tenho seis meias maratonas e um maratona “para contar”. A próxima será no dia 28 em Aveiro. Penso que também a fará. Quiçá nos encontraremos lá.
    Muitos parabéns pelo seu registo e força para concretizar esse objetivo.
    Convido-o igualmente a visitar o meu blogue, onde revelo o quão importante a corrida foi para mim e o quanto adoro maratonas. E não é o facto de já ter feito a distância que me leva a descurar a preocupação.
    https://exgordoatualmaratonista.blogs.sapo.pt/eu-ex-obeso-me-confesso-455
    Boa continuação

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s