Maratón de Valência: Uma viagem dourada

Tinha dito antes de enfrentar Valência que tinha a ambição (misturada com obsessão) de conseguir baixar finalmente das 3:30. Era uma questão de honra para mim, especialmente depois de dois tiros à trave (3:34 em Madrid e 3:31 em Bilbau).

Sabia que não seria fácil, mas quando os astros se alinham, quando o ambiente é totalmente a favor da superação, as coisas acontecem de forma natural, de forma simples (e talvez de forma merecida…). Foi precisamente isso que aconteceu em Valência ao longo de três dias incríveis.

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Parte da turmaça tuga antes da partida rumo a Valência

Acompanhado nesta aventura de forma bastante próxima pela Catarina, Carla, Prim, Mariana, Geraldes e André (e outros tantos runners que aqui não citarei, para não tornar isto numa lista telefónica…), sentia que aqui tinha o ambiente certo para conseguir ser feliz. A cidade respirava corrida. Fosse pelos corredores, fosse pelas pessoas locais, que nos acolheram como se fôssemos das suas famílias. Amáveis, simpáticos…

A Catarina fartou-se de me dizê-lo. “Vais ser feliz em Valência”. E não é que ela tinha razão?

Mas sei que só fui feliz pela forma absolutamente fantástica como este nosso grupo se uniu, pela boa disposição contagiante, que permitiu que a mente não entrasse em ‘tilt’ por causa da maratona. Naquelas horas que passámos antes do tiro de partida, naquelas horas que normalmente são longas, de ansiedade e de nervosismo, todos estávamos tranquilos. Sorrimos, divertimo-nos, contámos piadas, partilhámos experiências…

Ah! E comemos muito bem, que tivemos três cozinheiras maravilhosas (conforme se pode ver na foto acima)!

O arrancar de um dia normal

Chegou o dia da prova. Acordei à hora de sempre (três horas antes da prova) e dez minutos depois estava a devorar as minhas papas de aveia com Macacau (da Shine), banana e Kiwi, mais a meia de leite obrigatória. Este costuma ser o meu pequeno almoço de eleição, que normalmente me ajuda a dar a energia para a prova e, ao mesmo tempo, me permite ir à casa de banho pouco depois para deixar aqui os “canais internos” desimpedidos (neste dia não foi o caso)…

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A foto da praxe com o kit da prova

Comi na companhia dos outros cinco artistas que iam correr, todos com uma calma e uma tranquilidade incrível (pelo menos parecia!), e uma hora e meia antes da partida saímos de casa. Não sei o que ia cabeça deles, mas transpareciam a mesma tranquilidade que eu sentia. Sim, havia uma maratona para correr, mas todo aquele ambiente tranquilizava a nossa mente, quase como se tivéssemos a certeza de que iríamos ser levados ao colo até àquela meta.

Chegamos à zona da partida (algo caótica, devo dizer…), encontrámos a (enorme) turma de Peniche, os ‘It’s up to you’ e, já algo atrasados, voámos até para as nossas caixas à espera do tiro de partida.

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Mais de 20 mil corredores à conquista da rainha
Dos 0 aos 10k: Não podia acontecer mais nada?
48:24 minutos (@4’50)

Na véspera, o Geraldes tinha-se comprometido em ir comigo para 3:20:00. Era o objetivo inicial de Bilbau e queria dar uma nova chance a essa meta ambiciosa. Era “só” ir a 4’44. Só. Entrámos na caixa, esperámos o tiro de partida e… Bum!

O primeiro quilómetro foi uma espécie de reconhecimento e depois lá entrámos no ritmo, que na altura parecia acessível. Seguimos bem, até que aos 3k o Geraldes pára para alongar. Percebi que algo se passava e voltei atrás, para me certificar que estava tudo ok. Ele deu-me indicação para seguir e lá fui.

Terei feito uns dois quilómetros e ele já me tinha apanhado de novo no meio da multidão (manguitos fluorescentes a ajudar!). Seguimos a bom ritmo, sempre abaixo dos 4’50, mas já com o chip virado para um tempo apenas abaixo das 3:30.

Não me sentia capaz de ir a 4’44 durante tanto quilómetro. Sabia que eventualmente iria pagar a fatura. O Geraldes terá percebido e foi gerindo o ritmo de forma precisa (tirando uns quantos esticões 🤣), isto enquanto tinha o estômago às voltas praticamente desde o quilómetro inicial. Tanto que chegou a uma fase em que me dizia que ia tentar encontrar um bar para tratar da situação (não o fez…).

Dos 11k aos 21,1k: Relógio suíço (dos chineses) no comando
53:44 minutos (@4’50)
Tempo total: 1:42:31 (4’51)

Cheguei aos dez quilómetros num bom ritmo, mas já esquecendo o plano inicial. A ideia agora era manter-me nos 4’50 e ir buscar um novo recorde. Esse não me podia escapar e com uma lebre deste calibre não havia como falhar. Sempre ali no comando, o Geraldes foi mantendo-me no mesmo ritmo, ainda que às vezes se lembrasse de esticar um bocadinho mais (ele jura que não o fez…).

Desta fase, confesso, não me lembro já de grande coisa, mas olhando para os parciais parece-me que foi provavelmente a mais tranquila de toda a prova.

Dos 21k aos 30k: Keep on rollin’
43:51 minutos (@4’52)
Tempo total: 2:26:20 (4’52)

Passei à meia maratona em 1:42:30. O sub-3:20 que sonhava no início não ia dar, mas o 3:25 ainda era possível. Bastava para tal manter-me ali regular nos 4’50. E a verdade é que o consegui fazer. Rolei sempre à volta desse registo até aos 27k, pouco depois de ter passado pela primeira vez pela zona da meta. Não sei bem porquê, mas talvez o facto de saber que ainda tinha 16k pela frente tenha mexido cá dentro.

Já me custava manter-me abaixo dos 5’00, tanto que a determinado momento me virei para o Geraldes e disse-lhe: “Agora a minha meta é conseguir manter todos os parciais abaixo dos 5’00“. Até aos 30k consegui esse objetivo, sempre com o Geraldes de forma incrível à minha frente. Mantive-o sempre à distância de uns dez/vinte metros, nunca perdendo-o de vista, e isso ajudou-me a ser mais eficiente na corrida, pois tenho a noção de que ir lado a lado com ele poderia fazer com que nos ‘atrapalhássemos’ nos ritmos. Não foi o caso e tê-lo ali na minha frente revelou-se a melhor estratégia.

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A palestra motivacional da lebre (para ver no vídeo da prova)
Dos 30k aos 40k: Uma dor agonizante
52:41 minutos (@5’16)
Tempo total: 3:19:01 (4’58)

Cheguei aos 30k, àquele momento da verdade, com um tempo que me deixava de sorriso no rosto. 2:24:47, que era muito similar ao de Bilbau nesta fase, e com a grande diferença de me sentir fresco e ter pela frente uma multidão a apoiar. A manter o ritmo, dava para um tranquilo sub 3:30. Mas não podia ser tranquilo, não é?

Uma maratona é sempre um desafio desconhecido, de superação, de auto descoberta. Seja para o bem ou para o mal…

Aos 32k senti que algo não batia certo. Fiz o meu primeiro quilómetro acima dos 5’00. Não entrei em pânico, porque tinha ganho uma boa margem, mas nenhuma boa margem me poderia valer perante o que surgiu depois, algures aos 33.

Uma dor inexplicável. A dor de burro, mas mais dolorosa do que alguma vez tinha sentido. De tal forma que, de repente, dei por mim a ter dificuldade em respirar. A dor era insuportávelTive de parar. Parar por completo.

Encostei-me a um dos lados, subi para a relva, meti as mãos nos joelhos, respirei fundo, recuperei o fôlego e procurei voltar à prova. Não ia conseguir voltar ao ritmo anterior, tinha de me limitar a gerir até final e, acima de tudo, aproveitar o incrível apoio de toda aquela gente.

A minha mente tornou-se numa autêntica máquina calculadora.

“Tenho 3 minutos de avanço; são 180 segundos. Posso perder 20 segundos por minuto e mesmo assim vou ao sub 3:30.”

Redefini o objetivo. Não entrei em pânico. Simplesmente deixei-me seguir. Fiz o quilómetro 33, o da paragem, em 5’39. Os seguintes teriam de ser feitos à volta dos 5’10, 5’15. Não tinha margem para fazer muito pior do que isso. Tinha nove quilómetros pela frente e tinha de controlar a dor que se tinha instalado e também procurar voltar a pôr as pernas a funcionar. Não foi fácil, mas acho que fui alvo de uma espécie de sinal do universo.

Pouco depois de ter parado e voltado a correr, e enquanto gravava um vídeo (onde falava precisamente da necessidade de superar as adversidades e aproveitar o ambiente da prova), passei por um participante em cadeira de rodas. Peguei na câmara e, para além de passar a mensagem para quem no futuro tiver a chance de ver o vídeo, também tentei colocar na minha mente que aquele exemplo de superação tinha de ser seguido.

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Como poderia deixar de lutar ao ver este exemplo?
Um quilómetro mais tarde passo por um atleta cego, que seguia com o seu guia. Mais uma lição de perseverança e de superação. Como raio poderia não cerrar os dentes e lutar? Por mais que as pernas pesassem toneladas (ninguém te manda fazer três maratonas em mês e meio…) e a minha respiração estivesse afetada, tinha de me superar. Tinha de meter a faca nos dentes e dar tudo. Até à última gota!

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A segunda ‘chapada’ de realidade
Por estes dois exemplos, mas também por causa da multidão que estava nas ruas.

Sei que ia de olhar cerrado, com cara de poucos amigos, mas ia a desfrutar imenso daquele final de prova. Era incrível o corredor que se ia formando. A cada viragem era uma multidão de cada lado da estrada e eu, de câmara na mão, ia aproveitando para registar o momento. Por ter aquele pequenino pedaço de tecnologia na mão, sempre que o apontava sentia logo um elevar da boa energia que vinha do outro lado. Era o meu doping para deixar tudo naquela estrada.

Dos 40k aos 42,195: Esquecer a dor, dar tudo e sorrir
10:52 minutos (@4’56)
Tempo total: 3:29:53 (4’58)

Cheguei aos 40k (com 3:19:01) e começo a ver a Cidade das Artes ao longe. Ainda faltavam dois quilómetros. Olhei para o relógio e pensei “Não vai dar para o sub 3:30, mas vamos deixar tudo agora“. Tinha 11 minutos pela frente para fazer 2 quilómetros e 200 metros. Os dois quilómetros em 11 minutos era capaz de os fazer. Agora acrescentar os 200 metros fazia-me duvidar…

Faço o 41.º quilómetro novamente abaixo dos 5’00 (4’59) e ver aquele 4′ ali deu um pouco mais de força às pernas. Isso e a loucura que se vivia. Milhares e milhares de pessoas nas ruas.

Só faltava um quilómetro e qualquer coisa. Chego à descida que vai dar à zona da meta e o relógio apontava que se desse ia ser à justa. Aí, nem sei bem porquê, decidi desligar-me do relógio. Tinha de viver aquela chegada. Peguei na câmara novamente e filmei os últimos metros. Apontei às pessoas; levantei os braços, pedindo ainda mais apoio; diverti-me, sorri…

Curva à direita, subida para uma espécie de palco, curva à esquerda e a meta ali, no meio de uma espécie de lago. Tinha a sexta maratona à distância de 200 metros. Corri com o coração, esqueci as dores, apontei a câmara para mim, abrandei o ritmo para tirar um bom plano à meta e depois segui até àquele pórtico.

Cruzo a meta, paro o relógio e… 3:29:56 (que depois passou ao oficial 3:29:53)!

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Como acabar uma maratona? Tem de ser assim!

Sorri. Respirei fundo e sorri. Tinha acabado de bater de novo o meu recorde da maratona, mês e meio depois de ter sido pela primeira vez infeliz numa maratona. Bati o recorde, diverti-me à brava… É assim que quero que as próximas maratonas sejam. Todas! Pode haver tempos na equação, mas a jornada maratoniana tem de ser muito mais do que isso. Tem de ser sorrisos aos milhares que saem às ruas, tem de ser um incrível espírito de camaradagem com quem segue contigo nessa viagem. Tem de ser uma verdadeira festa.

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A quinta maratona do ano

E, no final, tem de ser o palco da partilha das conquistas. Tem de ser palco do orgulho por aquilo que os nossos fizeram. E ver tanta gente boa superar-se enche-me de orgulho e dá-me ainda mais vontade de continuar esta jornada. Se possível na companhia de todas estas fantásticas pessoas que fizeram parte desta aventura.

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Uma incrível turmaça cheia de ‘Good Vibes’ (só faltei eu na foto…)

Não sei quando nos voltaremos todos a juntar numa maratona, mas espero que seja para breve e que essa próxima não seja a última vez.

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A ostentar um pedaço de metal que nos enche a todos de orgulho

E agora… venha Sevilha!

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