Maratona do Porto: A prova perfeita… duas semanas mais tarde

Quando se fala em correr, a primeira ideia que nos vem à cabeça é algo solitário, onde só dependemos de nós. Um desporto de certa forma egoísta até. Mas quando entramos neste mundo, quando entramos a fundo, quando o vivemos na sua plenitude, percebemos que é tudo menos solitário, é tudo menos egoísta, é tudo menos um desporto onde só dependemos de nós.

E quando nos rodeamos das pessoas certas, então este mundo da corrida deixa de ser só uma forma de passar o tempo livre, deixa de nos dar só amigos com quem treinamos. Passa a ser um modo de vida e dá-nos uma verdadeira segunda família. Uma família que nos apoia de forma incondicional, mesmo que nela estejam pessoas que conhecemos há meia dúzia de semanas. E independentemente do tempo de relacionamento, há algo que partilhamos: a paixão por este incrível mundo, o saber reconhecer o esforço que é necessário para chegar aos objetivos, sejam curtos ou longos, sejam rápidos ou lentos.

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Uma equipa de luxo para o jantar pré-prova

A introdução acima serve para lançar aquilo que vivi ao longo de dois dias no Porto, onde cumpri a quinta de 40 maratonas que quero fazer até aos 40 anos. A minha ideia inicial era fazer uma prova tranquila, para curtir o ambiente e habituar-me à necessidade de levantar o pé em face das maratonas que terei umas em cima das outras nos próximos tempos. Até decidi colocar nos pés uns Saucony Ride ISO, o modelo com mais estabilidade e amortecimento que tenho à minha disposição. Só que não foi nada disso

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“The calm before the storm…”

Por várias razões.

Uma delas foi por causa do Gustavo Maia, que na véspera me tinha dito que iria fazer 25k abaixo de 5’00. Como admirador do seu trabalho, senti que seria um incrível privilégio fazer um longo de bom ritmo na companhia dele. E lá fui até aos 5k. Aí percebi que ele ia com uma mudança acima e fui na minha, nos meus 5’00. É que tinha feito uma maratona há duas semanas…

 

Pouco depois encontro o Osvaldo, que também ia para uma prova a 5’00. Fiquei sempre no meu ritmo e ele fugiu. Não entrei em pânico. Estava confortável, o relógio teimava em andar no mesmo ritmo e as pernas estavam incrivelmente frescas.

“Queres ver que vou bater o recorde aqui?”

Não vou mentir. Este pensamento passou-me pela cabeça conforme foram passando os quilómetros. Não ia tão rápido como em Bilbau, mas estava claramente mais confortável e sentia que podia imprimir um ritmo mais forte e aguentar. E melhor de tudo, tinha imensos atletas em quem me apoiar, por haver ritmos muito similares.

Uma lebre de luxo

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A foto pré-prova da praxe

Foi aí que surgiu a Mariana. Não me recordo bem ao certo, mas a primeira vez que terei reparado nela foi ali aos 14, 15 quilómetros. Pensei para mim “esta gaja vai num ritmo do caraças!“. Impressionou-me, mas segui sem pensar muito mais do que isso…

Passamos para Gaia, fomos andando e comecei a perceber que íamos sempre ali mais ou menos no mesmo ritmo. Ela fugia, eu fugia, mas eventualmente ficávamos juntos. Chegámos ao retorno e trocámos as primeiras palavras, em jeito de brincadeira, por o retorno ser mais simpático para as nossas pernas do que o da Meia Maratona, que nos obrigava a subir e contornar uma rotunda.

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Fiz uns 20 quilómetros com a Mariana e só temos esta foto juntos…

É para parar onde?

Dali em diante segui (ou seguimos…) a um bom ritmo, mas já com algumas dúvidas na mente. Estava a sentir-me bem e a manter um belo ritmo, mas não tinha bem certeza até onde iria o gás.

Defini os 25 como primeira barreira. Passei-a com distinção, enquanto já estava a rumar no regresso ao Porto, onde eventualmente apanharia a maior dificuldade. Subo para a Ponte D. Luís e ali senti pela primeira vez o peso das pernas. Aquela subida custou! Mas rapidamente ganhei novo ânimo assim que encarei o mar de gente que por ali andava. Voltei ao meu ritmo e lá segui, sempre em torno dos 5’00. Avançamos rumo ao Freixo, antes do último retorno. Aí, confesso, levei uma dupla injeção de energia.

Aos 25 quebrei a primeira barreira psicológica, mas aí tinha definido os 30 como final do treino rápido. Não queria desgastar em demasia, pois Valência está quase aí! Aos 30 pensei que podia chegar aos 31 e depois logo se via.

Só que aos 31 encontro a Cheila e a Clara, que me dão um incrível banho de apoio. A Cheila berra-me, dá-me um empurrão e eu, mesmo a sentir-me super bem, digo-lhes “faço mais 1k e abrando”. Até que a Mariana (lembram-se dela?) se mete na conversa. “Ai não paras, não! Vieste até aqui, agora vais comigo até ao fim!

Wow! Que determinação, até me assustei por momentos! Ela não me bateu, mas deu-me uma forcinha extra para seguir. Expliquei-lhe a minha situação e disse-lhe que iria com ela um pouco mais.

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À passagem pela Clarinha e pela Cheila

33, 34 e 35…

Dos 31 em diante, fui tentando ser um bom apoio para ela. Passámos a correr lado a lado, conversámos (falei-lhe do meu objetivo louco das maratonas), tentei perceber se ela precisava de alguma coisa, ela fez o mesmo e assim seguimos durante quatro quilómetros. Quase como se nos conhecêssemos há anos.

Chegaram os 35. Era hora de recolher às boxes e dar por terminado o treino longo. 35k a 5’04. Tinha feito a minha missão. Um longo a um ritmo bastante interessante e tinha ajudado alguém a chegar a 7k da meta. Despedi-me da Mariana, desejei-lhe boa sorte para o que faltava e ela lá seguiu – com a promessa de me esperar na meta com uma bela cervejinha (não cumpriu!).

Não sei se ajudei assim tanto, mas sei que ela foi em frente e pulverizou o recorde que tinha em meia hora e também sei que sem ela provavelmente teria fechado o meu treino aos 30 ou 32. Por isso, missão cumprida… por parte de ambos 💪

Já sem a Mariana por perto, faltavam-me 7 quilómetros para a meta e dali em diante fui devagarinho, a alternar corrida e caminhada, num processo de recuperação do longo que tinha acabado de fazer.

Afinal… convém correr

O Porto tinha algo para lá da quinta medalha dos 42k. É que ali estava o meu passaporte para Nova Iorque. Só tinha de acabar (eis a explicação), mas tinha de ter os 42,2k gravados no relógio, para posteriormente carregar para o Strava. Ora e o que é que sucedeu? Ia ficando sem bateria (ou pelo menos pensei eu)…

Comecei a prova com uns 80% e estava confiante de que chegaria até ao fim. Ali pelos 39k, lembrei-me de ir ver as horas, por termos um almoço marcado para depois da prova (sim, nós corredores adoramos comer!) e eis que levo um susto. Tinha a barra de bateria ali perto do fim!

Na altura, olhando para aquilo imaginei que teria uns 15%. Pela minha cabeça passou-me a possibilidade de morrer na praia. De acabar a minha quinta maratona e o relógio morrer antes de chegar aos 42k e não conseguir ir a Nova Iorque. Não vou mentir, fiquei quase em lágrimas ao perceber que todo aquele esforço poderia ser em vão. Tentei correr nos últimos dois quilómetros, mas já estava algo frio e custou um pouco ligar o motor. Mas lá fui. Passo o 41… Passo o 42… E chega o número mágico no relógio: 42,2. Respirei de alívio!

A maratona já estava registada e agora era só fazer a outra parte, que passava por correr até à meta. Eram mais uns 400 metros (a diferença entre o relógio e a quilometragem da prova foi bem normal, nada a ver com o que aconteceu em Bilbau…), com a particularidade de serem em subida e com muita chuva a acompanhar (não vos disse, mas choveu a potes neste dia e eu… amei!).

Mas aqui já nem queria saber de mais nada, só queria chegar àquele pórtico, parar o relógio e recolher a quinta medalha de uma maratona. Passo pela Joana, Hugo e Clarinha e sigo para os metros finais. Tiro a câmara, registo a chegada à meta e… está feito! A quinta maratona estava concluída, com um tempo final de 3:46:53. Aqui o tempo pouco importava. Tinha simplesmente de acabar, mas queria acabar bem fisicamente, feliz e realizado, ao contrário do que sucedera há duas semanas. E assim foi!

Ah, já me esquecia! VOU A NOVA IORQUE!

Vocês são incríveis!

E não podia terminar este texto sem agradecer a todos aqueles que foram incríveis nestas prova. Dos maratonistas Ercílio, Ricardo (Faly), Ricardinho, Miguel, Hélder, António, Tiago (Ticas), Caramba, Luís Marta, passando pelo incrível apoio da Cheila, Clarinha, Joana e Hugo… Do enorme prazer que foi conhecer a Paula e a Ana Luís. Tudo foi brutal neste fim de semana, especialmente a Ana Pinto, a companhia relâmpago que me acolheu, que teve uma paciência de santa para me aturar sempre nestas correrias!

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E agora já só penso nisto. Falta um ano!

Notas sobre a prova

Depois da experiência vivida na Meia Maratona, voltei ao Porto com expectativas elevadas e não saí desiludido.

Desde a feira (o triplo daquilo que vi em Lisboa!), a todas as comodidades para os atletas (café pré-prova, bengaleiro, bons acessos para as caixas de partida…), a Maratona do Porto tem tudo para ser uma prova de referência no nosso país, especialmente tendo em conta que, ao contrário do que sucede a Norte, o Maratona Clube de Portugal anda no sentido contrário (a tornar-se cada vez pior…).

Foi igualmente incrível o apoio que se sentiu ao longo de praticamente toda a prova, o que é ainda mais incrível tendo em conta o temporal que se fez sentir neste domingo. Nem quero imaginar se a prova tivesse sido feita com um dia de sol

Contudo, nem tudo foram rosas nesta prova e se há mil e um elogios a dar à organização, há um reparo a fazer quanto a um episódio que manchou de certa forma tudo o que de fantástico aconteceu. A fila do bengaleiro no final. Não sei bem o que se passou, o que mudou de outros anos, mas demorei uma hora para recolher a minha mochila no bengaleiro, esperando ao frio e com a chuva torrencial a cair-me. Eu e milhares de outros corredores, que depois de uma prova desta exigência têm é de se agasalhar, pois o seu corpo está claramente com as defesas em baixo perante o enorme esforço feito para chegar à meta. Eu não fiquei doente (fui para a prova doente e saí curado!), mas acredito que muita gente possa ter passado dias complicados no pós-prova.

Ainda assim, e apenas tirando este episódio negativo, saio do Porto uma vez mais impressionado com a capacidade de organização da RunPorto e com a certeza de que voltarei um dia.

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A foto pré-prova, com presença de ilustres ‘convidados’ madeirenses e brasileiros

Agora vamos a Valência?

4 thoughts on “Maratona do Porto: A prova perfeita… duas semanas mais tarde

  1. Sensacional Fábio!! A corrida é um desporto universal, incrível como me consegui identificar no teu relato, mesmo estando a 8.000 kms de distância!! Um abraço e força nesse projeto.

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    1. É mesmo! Já serviu, por exemplo, para conhecer pessoas incríveis que estão a milhares de quilómetros de distância. Espero no futuro fazer uma maratona aí desse lado do Atlântico. Seria um gosto! Abraço e obrigado pela força

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