EDP Bilbao Night Marathon: Um recorde de sabor agridoce

É estranho, mas é sentimento que tenho ao olhar para a medalha, para o tempo, para tudo o que fiz em Bilbao. Sim, já coloquei para trás a palavra falhanço, porque sei que só falha quem coloca objetivos elevados como meta, mas esta medalha, mesmo tendo sido a mais sofrida, é das quatro aquela que menos mexe comigo.

Talvez por entender que cometi demasiados erros, talvez por ter trabalhado tanto para fazer melhor, ou simplesmente porque sou demasiado duro e exigente comigo mesmo. Não sei o porquê, mas simplesmente esta medalha por agora é aquela que menor atenção merece da minha parte (também é um bocadinho feia, vamos ser sinceros…).

Começou logo mal…

Os erros começaram logo na hora de agendar a viagem. Por ter sido algo forreta, decidi comprar ao preço mais baixo para a véspera da prova, o que me fez chegar a Bilbao apenas 24 horas antes da partida. Cheguei, fui a voar para o centro, ainda fui às compras para despachar essa questão, mas acabei por me esquecer de algo essencial nos meus pequenos almoços de todos os dias de longo: aveia.

Por isso, ao invés de acordar cedo e tomar logo o pequeno almoço como fizera em todos os longos, acordei, andei uns 40 minutos para ir comprar a aveia e só depois comi como deve ser. Já seriam umas 9h30, uma hora e meia mais tarde do que era suposto. Já estava algo fora do plano.

 

 

Saí para levantar o dorsal na companhia do Nuno Gomes (não é o craque da bola…) , numa caminhada de uns 45′. Lá chegados, levantei tudo, dei uma volta rápida na feira e já estava despachado. Eram 11.00 e decidi combinar algo com um conhecido que ali morava. Andei mais uma hora… Dois dedos de conversa e mais meia hora a andar. Assim, do nada, já tinha nas pernas mais de 10k feitos às 12 horas, num dia em que supostamente deveria estar com as pernas o mais descansadas possível… Estão a ver onde isto vai dar?

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A foto da praxe. Nada falhou!

Fui então para casa, tratei do almoço e almocei pelas 14 horas. Aí vão duas horas de atraso em relação ao supostoTentei não pensar muito nessas diferenças em relação ao plano e fui para a minha sestazinha. Deitei-me, viro para um lado, viro para o outro… Dormir era mentira! Terei se calhar conseguido pregar olho durante uma meia horinha, até que 15 minutos antes das 16 me levanto e me começo a equipar. Ingiro a minha última fonte de energia pré prova (pão com banana e manteiga de amêndoa) e saio rumo à zona de partida (só mais meia hora a andar…)

Confiança e receio

Cheguei à zona de partida e estava tranquilo, mas ao mesmo tempo nervoso. Sabia que me tinha preparado bem e que se fosse preciso sofrer tinha o último longo para me inspirar; mas sabia que aqui dentro tinha dois diabinhos a falarem-me: um dizia-me para ter cuidado caso me surgisse alguma dor (ainda devido à contratura que tinha) e outro, apoiado no primeiro, recordava-me que, apesar de o objetivo de tempo ser Bilbau, a Maratona do Porto era bem mais importante, pois valerá o passaporte para Nova Iorque…

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A uma hora da partida…

19:00, lá partimos!

Ligo o meu Garmin Tactix Charlie logo ao passar a zona de partida e rapidamente entrei no ritmo certo (pensava eu!). O relógio dá o primeiro sinal de quilómetro a 4’37, o que era um arranque mais rápido do que o esperado. Os seguintes foram andando nesse ritmo, mantendo-me no ritmo desejado para esta fase, que seria de 4’47 até aos 10k. O problema foi que os quilómetros iam passando e não via nenhuma indicação da quilometragem de prova (ela lá estaria, mas no meio do pelotão não a conseguia ver).

O primeiro que teria visto foi aos 8k e já íamos com uma diferença surreal de 400 metros! Ou aquilo eventualmente acertaria ou tinha de recuperar. Confiei na primeira hipótese. Passo aos 10k e a diferença não tinha diminuído. Pior! Tinha aumentado! Já eram uns 500 metros de discrepância, isto numa fase sem grandes retornos… Passara aos 10k uns dois minutos acima do que era suposto. Tinha mesmo de recuperar!

Tive de meter o pé no acelerador, deixei o Nuno para trás, e até à meia recuperei algum tempo, ainda que claramente insuficiente para aquilo que tinha planeado para esta fase (1:40). Passei aos 21k em 1:42. Dobrava este registo e conseguiria pelo menos o meu plano B. Mas decidi que queria o plano A e da meia em diante procurei atacar, para recuperar a diferença… Dos 21k aos 27k fiz o pace certinho que queria acabar (4’44) e sentia-me confiante de que seria capaz de manter aquela passada até final (e até aumentar ritmo!).

Tinha planeado comer duas Salt Bar durante a prova. Uma à 1:30 e outra às 2:30, algo que fiz de forma certinha. Mas como temia que aquilo não chegasse e tivesse uma quebra de energia por volta das 3 horas de prova, levei também um gel, que coloquei nos suportes do porta dorsal. O que fiz a esse gel? Deixei-o cair aos 18k! Na altura quando senti que o tinha deixado cair fiquei lixado, mas confiava que aquelas 400 kcal das Salt Bar me chegassem (e qualquer coisa poderia apoiar-me na fruta que a organização tinha para dar). Não entrei em pânico, mas pelos vistos… Devia!

Uma marretada daquelas!

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Este era o plano de ataque

Fui super bem até aos 34k, sempre dentro do ritmo ou até acima, continuando a alimentar a ambição do sub 3:20. Era difícil, mas se conseguisse acabar forte poderia recuperar ainda mais e pelo menos ficar lá perto. Tinha de fazer vários quilómetros em torno dos 4’30, algo que num dia bom talvez fosse possível. Como talvez fosse possível se tivesse encontrado corredores ao meu ritmo…

Só que sempre que me chegava a alguém e o tentava puxar acabava irremediavelmente sozinho. Lembro-me de ter apanhado um grupo de sete corredores e ter pensado “é aqui que vou seguir e vou conseguir“. Animei-os, assumi a dianteira do grupo e rapidamente fiquei sozinho…

O dia bom não era mesmo este. Em nenhum aspeto. Os últimos sete quilómetros foram demolidores. Levei uma marretada monumental. Quando chego ao último retorno (um dos retornos mais estúpidos que me recordo de fazer!) já tinha as pernas a pesar brutalidades.

Era hora de mudar o chip pela primeira vez.

“O sub 3:20 já não dá. Vamos tentar o sub 3:25.”

O problema foi que, tal como na primeira volta, havia uma incrível discrepância entre o relógio e o que via na estrada, algo que me fez ainda desanimar mais… E rapidamente o chip das 3:25 foi ao ar e passou para o das 3:30; e passou para simplesmente acabar a minha quarta maratona.

Os últimos quilómetros foram penosos. Talvez ao nível daquilo que vivi na minha primeira maratona. Cada passada pesava toneladas e, tal como em Lisboa, o apoio era… nulo! Algo que me deixou ainda mais desencantado nesta fase final, porque de Bilbau e de Espanha tenho a ideia de gente que adora desporto.

Sim, sentiu-se apoio, mas só na primeira volta, quando na prova iam mais de 10 mil corredores. Quando a mesma ficou reduzida a mil, basicamente as pessoas recolheram e deixaram-nos completamente entregues a nós mesmos, no meio de uma noite bem cerrada. Tudo o que podia correr mal, estava a correr.

Mas isto nunca mais acaba?

Quando passo novamente o rio e entro na zona final pensei que iria conseguir soltar-me ligeiramente para acabar em força, até porque depois da ponte havia uma ligeira descida… mas logo depois vinha uma também ligeira subida! Mesmo assim, não quebrei e, segurando-me a um outro corredor, consegui ir até final a um ritmo razoável, isto num último quilómetro que mais pareciam dois…

Entro no túnel, vejo o Nuno e lembro-me da bandeira! Tinha as mãos tão geladas que passei um minuto a tentar tirá-la do bolso dos calções. Entro na zona de meta e nem sei o que fazer com a bandeira. Abro-a, coloco-a à minha volta e cruzo a linha de meta. 3:31:05 marca o relógio.

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De bandeira na mão para cruzar a linha de meta (e a tentar fazer um vídeo que não aconteceu…)

Irritado com a diferença incrível na quilometragem e triste por não ter conseguido o meu objetivo, andei, andei, andei… Recolhi o saco dos brindes, encontro o Nuno Silva (um amigo do Ricardinho com quem tinha estado na véspera) e vou para as cadeiras da massagem. Precisava! Até que, muitos minutos depois, olho para o lado e vejo alguém com uma medalha

“Então e a minha?”

Não tinha visto ninguém a entregar, devo ter passado por elas sem reparar, de tão chateado que estava… Levantei-me, pedi a uma voluntária ajuda e ela foi buscá-la e entregou-me. Não que aquela medalha tivesse grande sabor, mas tinha de levá-la para casa, mais que não seja para me lembrar do dia em que tentei e falhei. Do dia em que um falhanço me deu ainda mais força para continuar a tentar.

What if…

Para a história fica uma maratona com tempo oficial de 3:30:59, com exatos 60 segundos a mais daquilo que era o meu plano C. O relógio diz-me que fui mais rápido, que até a fiz em 3:24:44, que nesta noite de sábado corri não 42,195km, mas sim 43,45km… Vale o que vale. O relógio poder ter-se atrofiado com tanto retorno – estranho para um relógio que custa mais do que o meu salário… – o percurso poderia estar mal medido (supostamente era certificado pela RFEA)…

Talvez se tivesse tomado o gel não teria perdido 60 segundos que me dariam o sub 3:30; talvez se tivesse caminhado menos e descansasse mais teria conseguido aguentar o ritmo forte durante toda a fase final… Talvez sim, talvez não.

Para a história fica um recorde. Um recorde de sabor amargo. E também a certeza de que em breve tentarei a desforra. Não será é em Bilbau, porque ali… Não volto mais!

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Beber para esquecer…?

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