Rock ‘n’ Roll Madrid Maratón: Um recorde ao ritmo das… cañas

Seis meses e uma semana. O tempo que separa a primeira da minha terceira maratona. O tempo que separa uma primeira maratona a 4:03:26 (Lisboa), de uma outra a 3:34:36 (Madrid), tendo pelo meio os 3:37:01 de Sevilha.

Foram seis meses intensos, sofridos, de dedicação máxima, de muito trabalho, de muitas dores, mas com a recompensa gravada nestas três medalhas incríveis que vão ser sempre das mais saborosas da minha vida. A primeira é sempre especial, sim. Mas esta terceira, foi qualquer coisa.

De uma maratona que inicialmente seria só para completar, Madrid tornou-se numa maratona para recorde. Mesmo que tenha feito tudo ao contrário.

Sou metódico, perfeccionista, supersticioso. Quando algo resulta comigo, levo essa fórmula comigo até ao fim… menos em Madrid.

Cañas, tapas e… nada de descanso

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A Hidratação dos recordes

Estava tranquilo. Demasiado tranquilo. No sábado pensei para mim “se não der recorde, que se f***. Vou aproveitar que aqui estou”. Tanto que no sábado fiz mesmo tudo ao contrário do normal.

Não descansei o normal: entre dois treinos que fiz (um deles por uma causa ecológica, o #correrenverde) e os passeios por Madrid, totalizei 22 quilómetros.

Bebi cerveja… em abundância: estava entre amigos e quis aproveitar umas das tradições de Espanha. Umas cañas. Entre o almoço e o jantar terei bebido seguramente mais de um litro e meio, ao qual posso juntar o que bebera no dia anterior.

Comi tudo diferente: neste pré prova, a única coisa igual ao normal foi mesmo a pasta party do almoço de sábado e o pequeno almoço de domingo, porque de resto… foi tudo diferente. Na sexta, num mercado de Madrid, comi nachos (regado a cervejinhas). No sábado à noite, a escassas horas da prova, enchi-me de todo o tipo de tapas, regadas pelas cañas… claro está!

Era a chamada “recipe for disaster”. Só que não foi…

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O meu pré-prova: pasta party ao almoço de sábado; tapas e cañas no jantar de sábado; pequeno almoço de domingo. Tudo fit…

Chegou o dia da prova

5:55: Toca o despertador.
6:00: Tomo o pequeno almoço (panquecas de aveia, café e cacau, banana, kiwi e morangos, mais a minha meia de leite)
6:30: Ponho todo o equipamento pronto e estico-me no sofá por uns minutos
7:15: Levanto-me, equipo-me e tento ir à casa de banho. Sim, tento. Porque… não aconteceu.
7:30: Saio para a zona da partida na companhia do Hugo e da Joana
8:15: Chegada à zona da partida, onde me encontro com o Ercílio, Clarinha, Tiago e António
8:40: Hora das despedidas, dos “boa prova”, “boa sorte” e cada um vai para a sua caixa de partida (fiquei na 5, ainda que inicialmente tenha sido colocado na 7)
9:00: Partem os extraterrestres (elite)
9:05: Partem os humanos. Era a hora da verdade!

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A mente estava com o objetivo gravado

Tempo alvo: 3:29:59
Ritmo alvo: 4’58

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Parti com isso bem presente, sempre socorrido da minha cábula para saber os parciais necessários (tinha apontados os tempos para ritmos de 4’57, 5’00 e 5’05). Passo aos 5k em 25:22 (vou apresentar sempre os tempos oficiais). Estava só 30 segundos mais lento do que era suposto e já tinha superado a primeira grande dificuldade da prova, com uma subida intensa desde a partida até à primeira viragem. Sentia-me bem, mas havia algo que não batia certo (já explico o quê…).

Sigo para a primeira descida e chego aos 10k em 50:26. Tinha aproveitado a fase mais calma do perfil para recuperar algum fôlego e com praticamente um quarto da prova feito tinha 40 segundos de atraso. Continuava a acreditar…

Tomo o primeiro gel aos 14 quilómetros, com 1:10 de prova, dez minutos depois do inicialmente previsto. E porquê? Por duas razões. Primeiro porque o ponto de abastecimento estava bastante longe da hora de prova inicialmente prevista (tinha água aos 9k e aos 14k) e depois porque entrei nesta prova bem carregado de alimento e sentia-me perfeitamente cheio do que tinha comido no dia anterior.

Isto vai levar-me para um dos pontos mais críticos desta prova. O meu estômago. Não estarei a exagerar se disser que fiz uns 35 quilómetros com o estômago virado do avesso. Dores, muitas delas bem fortes, foram acompanhado-me ao longo da prova, tanto que, quando tomei o primeiro gel, tive receio de que aquilo me pudesse matar por completo e forçar ao abandono. Mas não aconteceu. O gel caiu bem ali, como caiu às duas horas, como caiu às três.

Voltando à prova em si…

Passo aos 15k em 1:15:48. Nesta altura comecei a aperceber-me que o relógio não batia certo com a quilometragem oficial, já que pelo relógio tinha passado aos 15k abaixo da 1:15 e, por isso, abaixo do ritmo alvo. Na altura pensei que poderia eventualmente a quilometragem acertar lá para a frente, mas não sucedeu.

Fui seguindo a bom ritmo e, aos 17k, vivi aquele momento que só quem corre entende. Ali, algures no meio do nada, dá-se a separação. Para a esquerda vão os da meia maratona. Para a direita os da maratona. Ali, naquele momento, de uma ponta à outra, ouvem-se gritos de incentivo entre corredores, os “animo, campeón”, os “venga”… Para uns é um último boost antes de atacar os 4 quilómetros finais. Para outros… é um nadinha de energia extra para enfrentar os 25k que faltam até à meta.

Ali, quando virei à direita, duvidei de mim. “Ainda me faltam 25 quilómetros. Isto não vai dar…“. Tinha o estômago todo virado do avesso, tinha as pernas já a pesar mais do que era suposto. Mas fui para os 42k. Tinha de ir. Nessa altura pensei para mim “os que viraram ali são uns heróis. Deste lado estão os super heróis…

Chego à meia maratona em 1:46:35. Um minuto e meio mais lento do que era suposto, algo que num dia bom seria perfeitamente capaz de corrigir. Mas não era assim tão fácil.

Chego aos 25k em 2:06:07. Em quatro quilómetros tinha tirado 28 segundos e, a espaços, sentia-me melhor da barriga. O pior veio depois… mas antes tive o meu momento Gustavo Maia (mas sem tanta pinta, eu sei!).

Pouco depois dos 25, um espanhol aproxima-se de mim e pergunta-me como era correr de câmara na mão. Falamos um bocadinho e aproveitei o momento para trocar umas impressões com ele. Falei-lhe do meu desafio e ele deu-me conta de uma missão solidária que tem em conjunto com uns amigos, de fazer 18 maratonas em dias seguidos (com pessoas diferentes) por 18 causas. Aceitei de pronto o desafio, claro! Terei estado a falar com ele durante uns cinco minutos e depois lá segui à minha vida. E ele à dele (que só acabou na meta, tal como eu).

Um encontro (relâmpago) com o muro

Chego aos 30k em 2:31:33 (passava a ter mais de dois minutos de atraso) e começava uma verdadeira travessia pelo deserto. A Casa de Campo. Por um lado soube bem correr por uma zona totalmente verde, sem toda aquela poluição da cidade. Por outro, tirando poucos pontos, estávamos verdadeiramente sozinhos com os outros corredores. Sem apoio popular algum…

E aqui começaram as dificuldades. Olho para o chão e leio “No hay muro”. Era uma mensagem para motivar, para mostrar a quem por ali passava que nada nos podia travar. Só que cá dentro pensei “hoje vou espetar-me no muro. Vou bater de frente e ficar ali estatelado“.

Tomo a salt bar às 2:40 de prova. Estava fraco de energia já. Vinha tendo sinais ameaçadores de câimbras, tanto que minutos antes tinha pedido à equipa médica ambulante (de patins) para colocar algum spray nos meus gémeos. A salt bar caiu que nem ginjas. Deu-me a energia que estava a faltar. Retomei o ritmo e consegui voltar a rodar pelos 4’59, 5’00.

Saio da Casa de Campo já completamente estoirado, ainda com 7 quilómetros pela frente. Nesta altura encontro o António, que tinha acabado de fazer a Meia Maratona num tempo canhão. Mesmo assim, e provavelmente todo rebentado, foi à outra ponta da cidade puxar por mim e pelo Tiago. Andou comigo um meio quilómetro, deu-me uma ajuda importante e voltei a ficar sozinho.

Nesta altura, aos 35k, passo em 2:57:08. Eram já três minutos a mais para o sub-3:30. Tinha de tirar perto de 30 segundos por quilómetro para conseguir. Já sabia que não dava e decidi que o ideal era tentar ser consistente e regular nos sete quilómetros que faltavam. Era fácil de dizer e pensar, mas difícil de executar.

Faltavam então sete quilómetros. Faço uma descida, viro à direita e volto a enfrentar uma subida antes de chegar junto ao Estádio Vicente Calderón. Tal como o estádio… eu também já estava acabado. Entro na Puente de San Isidro de rastos e com o calor a começar a fazer das suas. Passo no abastecimento, pego numa garrafa de água no início, bebo uns goles e atiro o resto pelo meu corpo abaixo. Mais adiante pego numa banana e como aquilo como se fosse um amendoim. De tacada! Ainda antes de se acabar a zona de abastecimento, agarro numa outra garrafa de água e ingiro o último gel. Era a energia que tinha para os derradeiros cinco quilómetros.

Desço a Calle de San Alejandro e sinto uma dor incrivelmente aguda no joelho esquerdo. Faltavam cinco quilómetros e estava com sinais claros de que o meu corpo estava a dar as últimas. Cerrei o punho, cerrei os dentes e fui, a correr com o coração, conforme ia lendo ao longo de todo o percurso em cartazes exibidos pelos incríveis madrilenos que saíram às ruas para nos apoiar.

E foi aqui, na altura mais dura que me lembrei de todas as pessoas que me apoiaram nesta longa jornada e de quem, na segunda-feira anterior, tinha feito a Maratona de Boston nas piores condições possíveis. Lembrei-me da Catarina, uma das maiores inspirações que alguém pode ter, lembrei-me de todos e ganhei forças onde não as pensava ter.

Com uma pequena descida, resisti ao quilómetro 38, antes de enfrentar uma fase final capaz de acabar com qualquer um. Vinha aí a zona de subida final, quase como se de uma etapa de ciclismo se tratasse, com final numa contagem de primeira categoria. Lembro-me de ter virado à direita, olhar em frente e pensar “estou fodido“.

A meio dessa ligeira subida reparo que vamos ter uma viragem à direita. Viro e… uma descida. Respirei de alívio… mas por pouco tempo. Viro para o Paseo Imperial e agora é que eram elas. Subir, subir e subir… Ainda antes da passagem aos 40k, recordo-me de passar por um elementos d’Os Galgos. Nas costas tinha o nome de André. Vi que estava a sofrer. Gritei-lhe “força André. Está quase“. Ele respondeu-me “estou morto, não dá mais“. Voltei a dizer-lhe “está quase, boraa“. E segui.

Passei aos 40k em 3:23:21. Obviamente que sub-3:30… nem vê-lo. Mas recorde da distância… não me ia escapar!

Ando um meio quilómetro, já em modo “dói-me tudo, mas não quero saber” e oiço alguém dizer-me “olha quem vai aqui”. Era o Tiago. Estava completamente a dar as últimas, já a sofrer bastante com o calor. Decidi ficar com ele. Ele dizia-me para ir, mas decidi ficar ali. Dei-lhe força, recordei-o que ao jantar tínhamos uns quantos hamburguers à nossa espera, que estava quase… Passámos aos 41 e disse-lhe “bora, falta só um” e fomos seguindo, ainda que tenha sido obrigado em determinados momentos a abrandar imenso a passada. Faltava pouco mais de um quilómetro para a meta e tomei uma decisão que custou bastante: tinha de forçar um bocadinho o ritmo para não perder o meu PR. Sabia que o Tiago iria chegar pouco depois. Que quem chega ali… chega à meta!

Disse-lhe que ia embora e comecei a abrir por entre a multidão de atletas que por ali andavam. Peguei na câmara e registei praticamente o último quilómetro na totalidade. Passei por entre as milhares de pessoas. Ouvi gritos de força. Gritei para mim mesmo. Sorri, gritei de novo.

Reta da meta. Estava em êxtase. Ainda faltavam uns 500 metros e eu ia em pleno sprint, encostado ao lado esquerdo da reta, a esticar a mão a quem por ali estava a apoiar e a captar com a câmara momentos que jamais vou esquecer.

Oiço um grito “Bora, Fábio!”. Eram os Tomés (Ercílio, Clarinha, Joana e Hugo), que estavam ali há um bocado à espera da minha chegada. Retribuo e sigo. Era só subir mais um bocadinho. A meta já estava ali. Não me recordo bem, mas acho que nem olhei para o relógio neste quilómetro final. Quis viver o momento.

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O momento em que passei pelos Tomés antes de cruzar a linha de meta

Entrei na passadeira vermelha, vejo o pórtico e… está feito!

3:34:36! UM NOVO RECORDE!

Nem dois meses depois de Sevilha, faço uma nova maratona quase dois minutos e meio mais rápido, numas condições muito mais complicadas do que as que vivera em Sevilha. Só podia estar orgulhoso.

Fiz a minha festa privada por uns segundos e voltei para trás. Queria apanhar o momento da chegada do Tiago. Ao longe vejo a bandeira portuguesa e lá vinha ele. De rastos, mas feliz da vida por ter, também ele, completado a sua terceira maratona.

Missão cumprida! Já só faltam 37!

E, não, não podia terminar este post sem deixar uma palavra de apreço para quem fez esta aventura comigo, em especial à Joana e à Clarinha. Sem correr mais do que sete, oito quilómetros há meses, ambas meteram-se na Meia Maratona e, com uma força de vontade incrível, conseguiram chegar ao fim. Ao Hugo e ao Ercílio, por toda a ajuda que me deram nestes dias, pelo apoio que me deram, pelo companheirismo incrível. Ao António, por ter ido ajudar-me naqueles momentos mais duros. À Rita, por ter completado mais uma meia maratona cheia de pinta e pela boa companhia que me fez. E ao Tiago, por ter completado uma terceira maratona tal como eu. Somos todos campeões. Somos todos heróis!

Final
A bela da turma portuga que tornou esta maratona numa experiência para recordar

 

O filme da maratona, agora em vídeo:

 

11 thoughts on “Rock ‘n’ Roll Madrid Maratón: Um recorde ao ritmo das… cañas

    1. Muito obrigado! Soube mesmo bem e acredita que foi algo inesperado. Estava efetivamente com a mentalidade “vou aproveitar, que se lixe o tempo” e no final melhorei.

      A(s) próxima(s)? Marcadíssimas! 😀

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  1. Parabéns!
    No último Km parecia que ias em sprint…
    Divertindo-te e fazendo um PB, não podia ter sido melhor…
    Na próxima, tiras um minuto por cada caña que bebeste a mais (e vais aos Jogos Olímpicos, eheh?)
    Força nos treinos!

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    1. Muito obrigado pelo teu comentário!
      Ia efetivamente em sprint… mas só ali até aos 200 metros finais, que aquilo começou a ter uma inclinação chata para quem vinha com tanto quilómetro nas pernas (ainda para mais com Sevilha feita nem dois meses antes).
      Cañas que bebi a mais? Acho que bebi a menos! Da próxima vou dobrar a dose, para ser ainda mais rápido ahahah 😀
      Obrigado pela força e a ver se um dia nos encontramos aí pelas maratonas do Mundo!

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